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13:49

(por Isabela)

Quando a gente é criança a gente imagina que a vida é como um parque de diversões. Que é só algum adulto pagar seu ingresso pra você entrar, escolher o brinquedo mais divertido e passar o resto do seus dias lá dentro, comendo algodão doce e cachorro quente. Pena que ninguém dá as instruções do que fazer caso o brinquedo quebre, ou caso você queira voltar pra casa e para o colo da sua mãe. 

É engraçado que com sete anos você se vira muito bem sozinho no seu quarto com seus amigos imaginários, e depois dos vinte, quando você se depara com a cama vazia e além de você só tem mais quatro paredes brancas te fazendo companhia, dá um desespero e uma vontade de gritar. A gente acha que vai ter amigo imaginário pra sempre, só que a gente para de imaginar muito antes. O dia passava tão devagar sentada sozinha brincando de boneca ou lá no quintal chutando bola, que nem fazíamos ideia de como meia hora sem fazer nada parece a coisa mais difícil de se conseguir.

A gente pensava que trabalhar e usar salto alto era a melhor coisa do mundo, sonhava em um dia deixar de usar os sapatos da mãe e passar a ter uma coleção própria, com um de cada cor. E quando chega na segunda-feira de manhã, trocar o chinelo velho por qualquer coisa que aperte seu pé é mais doloroso do que pisar descalço em uma peça de lego. Ah, e quem diria que construir um castelo seria bem mais difícil do que construir qualquer coisa com algumas pecinhas coloridas? Queria ter uma casa enorme, com pelo menos oito quartos e um escorregador. E agora se eu arrumar um apartamento de 40m² tô feliz. Tão estranho como a gente costumava a sonhar tanto e agora se contenta com pouco. A gente para de acreditar que as coisas são possíveis pra fazer as contas do final do mês. A preocupação deixa de ser qual desenho assistir e passa a ser se o dinheiro vai dar. Se ele vai ligar, se seu pai vai descobrir daquele final de semana, se seu chefe vai brigar com você, se quando chegar o dia dos namorados você vai ter um lugar pra jantar.

Acho que deveria ser proibido deixar de acreditar. É como o Peter Pan sempre disse: "Não cresça, é uma armadilha!". E nem no Peter a gente acredita mais, logo ele, que lutou tanto pra você continuar a ser criança.

Da próxima vez que a gente entrar em um parque de diversões, também deveria ser proibido sair de lá sem voltar a sonhar. Sem fazer planos de uma vida que envolva ganhar muito dinheiro ou ter uma roupa legal. Se a gente se preocupasse em viajar sem ter dia pra voltar ou em dar um abraço naquele seu amigo que você não vê há muito tempo, tudo seria diferente. Quando eu era criança eu sonhava em ser tão grande, e agora que eu sou grande a coisa que eu mais quero são meus pequenos sonhos de volta.

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