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11:27

(por Isabela)

Eu sempre me vi diferente das outras pessoas. Não é o caso de ser prepotente ou muito menos de me achar superior. Era o modo como eu me relacionava que me fazia sentir diferente. Eu sempre fui "quieta". Nunca soube ser o centro das atenções. Sempre falei pouco e escutei muito mais. Logo, sempre fui observadora. Isso acabou se tornando mais evidente quando mudei de escola na sexta série depois do ano letivo ter começado. Todo mundo já tinha o seu amigo e o seu grupinho, e eu era uma completa estranha ali. Por mais que eu quisesse, eu não conseguia me soltar. Via todo mundo sendo amigo de todo mundo, e de alguma forma aquilo meio que me assustava. Eu pensava: "Será que eles vão me ouvir se eu falar? Será que vão prestar atenção em mim?". E essa incerteza era tão assustadora, que eu optava por continuar quieta no meu canto. Aos poucos, fiz amizades. Quando eu percebia que aquela pessoa, que era uma desconhecida há segundos atrás, estava me ouvindo e tinha interesse no que eu tinha para falar, eu começava a me soltar. A tensão começava a sair dos meus ombros e eu conseguia ser eu mesma. Mas no final do dia ou no final da semana, eu me sentia exausta, como se aquela interação social para sobreviver em meio a pré-adolescentes tivesse consumido minha energia. Mas com doze anos eu nunca que ia conseguir refletir sobre tudo isso e descobrir o que eu tinha de diferente.
Achei que, conforme fosse ficando mais velha, isso ia mudar. Mas não mudou. Com quinze anos me vi novamente em uma sala de aula onde não conhecia ninguém. Em um cenário onde todos faziam amizade rapidamente com o coleguinha ao lado, eu precisava de mais tempo. Precisava observar mais, tipo um "reconhecimento de território". Isso acabava me afastando de algumas pessoas, obviamente. Adolescente não entende o que é ser quieto. Adolescente precisa falar o tempo todo com todo mundo, em um volume altíssimo e julgar o amiguinho que é diferente. "Diferente". Mas com calma, encontrava alguém que era parecido comigo e fazia amizade. Sempre tinha alguém que respeitava o meu tempo, o meu espaço e o meu jeito. Fui chamada de "quietinha" várias vezes, como se isso fosse errado. Nunca me importei com bullying, sempre fui bem resolvida comigo mesma. E isso parecia incomodar as pessoas. Mas graças a Deus que a gente não é adolescente pra vida inteira.
O fato é que eu mudava de ambiente e eu continuava a mesma. Cheguei até a pensar que o problema era o colégio, mas não era. Então eu era o problema? Mas qual era o meu problema, afinal? Eu convivi muito tempo com esse conflito dentro de mim, tentando entender o que me fazia diferente, por que não me relacionava tão bem com pessoas que acabara de conhecer e por que tudo parecia desaparecer quando conseguia confiar nessas pessoas. Por que essa interação social parecia me desgastar tanto, sendo que eu nem era tímida? E por que que, ao mesmo tempo, eu sentia prazer em sair com os meus amigos, mesmo que isso me desgastasse depois? A frase que mais escutei minha vida toda foi "você mudou muito desde quando te conheci". Não, amigo. Eu não mudei. Você que me deu a oportunidade de ser eu mesma. Muitíssimo obrigada.
Graças a internet, somos expostos a diversas coisas e a diferentes realidades o tempo todo. Foi quando li um texto em um blog que falava sobre recomeços, que me deparei com a explicação de pessoas extrovertidas e introvertidas. Os extrovertidos ganham energia quando estão interagindo socialmente, tem facilidade para se relacionar e fazer amigos, e os introvertidos são o oposto disso. Simplificando, pessoas introvertidas precisam de um tempo sozinhas para recarregar a bateria que foi gasta nessas interações sociais obrigatórias, como o trabalho, por exemplo. Também são pessoas que têm um maior déficit de atenção, que são muito observadoras e algumas não são tímidas (meu caso).
Quando li aquele post no ano passado, muita coisa ficou clara pra mim. Percebi que a melhor coisa que eu poderia fazer se quisesse me sentir mais aliviada, era separar uma parte do meu tempo só pra mim, onde eu fosse ficar sem falar com ninguém, no meu canto, fazendo qualquer coisa. Percebi que o fato de eu querer me isolar às vezes não era chatice, era necessidade. Ao começar a praticar isso, transformando em rotina, percebi que tinha muito mais disposição para conversar com as pessoas e não me desgastava tanto quanto antes.
Enquanto a maioria das pessoas gosta de ir para balada no final de semana, eu prefiro ficar em casa lendo um livro. Gosto de ficar sozinha no meu quarto assistindo a um filme. Resolvo meus problemas sentada em um canto quieta, pensando, organizando meus milhões de pensamentos simultâneos. Isso também faz com que eu seja uma ótima observadora, e isso também faz com que eu perceba que você está me julgando por ser assim. Novamente, eu sou introvertida, não trouxa.
Pode parecer um pouco de frescura tudo isso. Mas é bem maior do que eu descrevi aqui. Passei todos esses anos da minha vida trancada no meu mundo e achando que isso era um problema. Tenho certeza que ainda existem muitas pessoas que acham isso. Mas ó, te garanto que não é.
O que estou tentando dizer, é que por mais que você me peça para mudar, eu não vou mudar. As pessoas me pedem para sair mais. Falam que eu preciso conhecer gente nova, ser diferente. Mas eu já sou diferente, do meu modo. Se você faz parte de minha vida, eu te agradeço muito por ter tido paciência comigo e por ter me acolhido como amiga. Foi difícil pra mim, mas tenho certeza que deve ter sido difícil pra você também conviver com uma pessoa que não fala abertamente sobre sua vida.

E sim, foi muito difícil escrever uma coisa tão pessoal assim.


Caso tenha interesse em saber mais sobre pessoas introvertidas x extrovertidas, você pode acessar os links abaixo que possuem ótimas explicações:

https://www.youtube.com/watch?v=WjD47VRS51k
(Will Drabyshire é um vlogger britânico e é introvertido e conta um pouco mais sobre isso. Eu não assistiria só esse, assistiria todos os outros vídeos dele também porque são tão incríveis quanto).

http://www.brasilpost.com.br/2014/01/30/sinais-pessoa-introvertid_n_4695662.html
(Apesar de ser uma lista, a explicação de cada tópico mostra como é ser um introvertido).

http://www.felizcomavida.com/quer-ser-feliz-pare-de-ser-legal-com-todo-mundo
(O blog da Fê Neute é muito inspirador, e além de explicar a diferença entre Introvertidos e Extrovertidos, você ainda ganha conselhos que valem para qualquer tipo de pessoa e para qualquer situação. Vale a pena ler mais do que ela escreve também).

http://www.ted.com/talks/susan_cain_the_power_of_introverts
(Palestra da Susan Cain no TED sobre o poder dos introvertidos. Susan também escreveu o livro "O Poder dos Quietos", traduzido e lançado aqui no Brasil pela editora Nova Fronteira)

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