#012

14:19

(por Isabela)

Fiquei vinte horas na fila junto com mais três amigas. Tínhamos quinze anos e era o dia mais aguardado de nossas vidas. Não fazíamos ideia de como seria, de como era dentro da casa de show, o que se fazia em um show enquanto a banda tocava no palco para milhares de pessoas em pé a sua frente. Mas tínhamos planos. Muitos planos. Costuramos uma bandeira com o nome da banda com as cores do Brasil. Ficamos todas essas horas na fila, em um frio cortante, sentadas na calçada cantando as músicas, dizendo o que mais gostávamos em nossos integrantes favoritos, revezando um tour por toda a extensão da gigantesca fila que havia se formado. Pegamos uma folha de caderno e escrevemos "ME DÊ UMA PALHETA" em inglês, achando que eles conseguiriam enxergar. As três horas da tarde, nós já estávamos em pé, em fila indiana, montando uma corrente para que ninguém furasse fila, prontas para entrar na casa de show, que só abriria as oito.
Entramos com câmera fotográfica digital escondida e pilha extra dentro do sutiã e na meia.
Disseram que era proibido.
As nossas mãos tremiam. Minhas amigas sumiram do meu campo de visão quando entramos. Era cada um por si. Os diversos lances de escada eram subidos de três em três degraus. Nunca corri tão rápido na minha vida, ainda mais para ficar parada por uma hora e meia depois, esperando o horário do show. Mas corri. Corremos. Quando vi o palco, pensei "então é assim que é uma casa de show." O palco todo escuro, uma bateria ao fundo. Procurei minhas amigas e, quando as encontrei, tivemos uma pequena discussão de que lado do palco ficaríamos, afinal, isso significaria qual dos membros da banda veríamos mais.
E sim, isso era muito importante. 
No fim, fomos para o nosso lado esquerdo. E esperamos.
As horas nunca pareceram demorar tanto. Meus cento e cinquenta e nove centímetros de altura nunca foram tão importunos. Eu não via nada além do cabelo da minha amiga na minha frente. Não tinha ar. Passei mal. Mas aguentei. Comecei a ficar irritada com a plateia que gritava a cada vez que o anúncio do celular temático da banda que estava sendo lançado no Brasil aparecia no telão. As pessoas começaram a empurrar e acabamos indo parar mais para trás eventualmente. Minha amiga me perguntou uma última vez que horas eram. Eu disse "são nove e meia", e as luzes se apagaram. Eles eram britânicos, afinal.
Vários flashes de luz vieram da iluminação do palco. Os gritos eram ensurdecedores. Eu não conseguia ver nada, mas eu gritava também. Eu gritava com todas as minhas forças, me deixando ser levada por aquela adrenalina. Detesto barulho, mas ali isso não era um problema. Então eu consegui ver um dos guitarristas. De camiseta verde, o cabelo loiro, o sorriso no sorriso. Então o primeiro verso foi cantado por ele e eu senti ali, pela primeira vez, o que era estar em um show.
Quem é muito ligado em música, pode entender melhor o que estou tentando descrever aqui. Mas é uma sensação única. Você canta com todas as suas forças. Você não escuta a sua voz. Eu não olhava para os lados, meus olhos estavam fixos no palco na minha frente, acompanhando cada movimento que eles faziam com os meus olhos. "Ainda bem que estou conseguindo enxergar alguma coisa", eu pensava. "Eles estão bem na minha frente", meu coração batia mais forte. O meu corpo começou a agir naturalmente. Os braços se levantam, a voz sai sem você escutar, os olhos se fecham sem você perceber. A música é a única coisa que importa. Eu sabia que minhas amigas estavam ali por perto, nós estávamos ali juntas, mas naquele momento, cada uma estava presa dentro do seu próprio mundo, sentindo tudo o que a música nos fazia sentir, multiplicado por mil. Eu pulava quando eles pediam para pular e batia palmas quando eles batiam também. Eu, que sempre fui muito conectada com música desde criança, me senti no lugar certo. Me senti ainda mais conectada com aquele mundo e com o que as letras e o momento tinham para dizer. Era o primeiro show da minha vida, era a primeira vez que estava vivenciando tudo aquilo e parecia tão certo.
Com o passar do tempo eu fui entender que um show se trata de música, obviamente, mas também se trata de momento. De você abrir os olhos por um instante e olhar ao seu redor. Sentir a tal da vibe. Achava que era balela até realmente sentir. Ver todas aquelas milhares de pessoas de braços levantados, assim como os seus, cantando com todas as forças aquele verso que mais representa alguma coisa em sua vida. É uma sensação única e boa, dessas que faz você ter saudade depois.
E então, quando o show acabou e as luzes se acenderam, nós nos entreolhamos. Não sabíamos o que falar direito. Estávamos exaustas devido ao tempo que ficamos acordadas. A boca estava seca. A voz quase não saía. Não precisávamos falar nada para saber que tinha sido incrível. Que tinha superado expectativas. Que nossa música favorita havia sido tocada. Que "ele olhou pra mim, tenho certeza!".
O que restou do show foi o ingresso, as fotos, os vídeos e um fio da toalha que um dos integrantes havia enxugado o rosto. O que permaneceu do show foi a sensação de pertencer a um mundo melhor do que esse e que você pode fugir para ele a qualquer momento, fechando os olhos, levantando os braços e cantando o mais alto que puder.

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