#015

15:50

(por Isabela)

Predestinados a se encontrar, eles sentiram isso desde a primeira vez em que se viram. 

Ela, sentada em um banco do único parque da cidade pequena que morava. Um caderno em mãos, fones de ouvido, um lápis na mão direita. Os olhos percorriam todo o local, prestando atenção em cada detalhe, porque alguma coisa precisaria servir de inspiração. Com o passar dos anos, desenhar havia passado de uma distração, tornando-se necessidade. Uma ruga se formava no meio da sua testa, e seus batimentos cardíacos aceleravam aos poucos, em resultado da ansiedade e da vontade de querer tirar alguma coisa de dentro de si logo. Aparentava ter exatamente a idade que tinha. Vinte e quatro anos e mais de vinte mil pensamentos simultâneos borbulhavam em sua mente quando ela tentava criar alguma coisa. Respirou fundo. Fechou os olhos. Sentiu o calor gostoso do sol sob seus braços descobertos. Quando os abriu novamente, o fez bem devagar, como, se daquela maneira, alguma coisa mágica fosse se revelar diante de si.

E revelou. Ele.   

Ele, correndo pelo parque naquela manhã de sol de Domingo, que deixava de ser quente quando o vento frio soprava na direção contrária que ele percorria. De bermuda e moletom, ele agora aparentava ter recém completado dezoito anos, e não vinte e tantos como de fato tinha. "Foi a barba que tirei", dizia ele para todos que ficavam perplexos quando dizia sua idade. Corria porque era a única maneira de deixar seus pensamentos nulos. Achava incrível que, quanto mais rápido corresse, mais anestesiado seu cérebro ficava. Então corria mais veloz, até seu peito doer e suas pernas pedissem para parar. Com a respiração falha, ele se curvava toda vez, apoiando as mãos no joelho e fechando os olhos, como se aquilo fizesse o seu coração bater mais devagar. Sentia o ar voltar aos pulmões aos poucos, e só então permitia-se abrir os olhos e voltar a posição ereta. Quando, finalmente, havia conseguido regularizar os seus batimentos cardíacos, aquele acaso do destino havia feito com que ele disparasse novamente, talvez até mais rápido. 

Era ela.

Ela não tinha um bom histórico de relacionamentos. Havia aprendido a se acostumar a não receber tantos olhares quanto as suas amigas recebiam. Tinha até criado uma teoria de que era, pelo menos, 80% invisível. E, em momentos como aquele, quando alguém a olhava daquela maneira, era como se alguma coisa estivesse bem errada. Não sabia ao certo como reagir, então, automaticamente, ignorava. Desviou o olhar do alto rapaz de rosto de bebê e fixou seus olhos bem redondos no papel em branco do caderno em seu colo. Começou a rabiscar qualquer coisa, somente para parecer ocupada. Sem que se desse conta, ela estava começando a desenhar um rosto masculino.

Ele era o típico nerd quando adolescente. Nunca soube muito bem como agir diante de garotas, como se fossem, de fato, um fruto proibido. Quando começou a namorar, há 5 anos, achou que todos os seus problemas haviam acabado. Não teria mais de passar por aquele constrangimento ao chamar alguém para sair pela primeira vez. Mas, ali, naquele instante, olhando para aquela garota de cabelos cacheados e escuros, ele sentia-se da mesma forma que há tempos não se sentia: um completo babaca. Quando ela desviou o olhar, ele permitiu-se respirar fundo, pois parecia que sua respiração estava presa desde quando a viu. Abaixou-se para amarrar o cadarço, combinando com ele mesmo que, quando o laço estivesse feito, se aproximaria mais dela. 

Ela havia esquecido de deixar o celular no silencioso naquela manhã, então o susto que levou quando o aparelho começou a tocar na sua bolsa, foi o equivalente a um princípio de infarto. Seu lápis escapou de sua mão, rolando para longe. Pegou o aparelho um pouco atrapalhada, recebendo a notícia de que seu pai precisava de ajuda. Aquele susto também a fez se esquecer do rapaz corredor, somente lembrando quando estava prestes a sair do parque, carregando sua mochila como se fosse seu bem mais precioso. Virou-se para trás depois de discutir consigo mesma algumas vezes se deveria ou não fazer isso. Sem conseguir chegar a alguma conclusão, seguiu o que seu coração lhe falava. O procurou com o olhar e com o coração, mas acabou ficando somente com a vontade de vê-lo de novo.

Ele entrou naquela balada somente porque era aniversário de um amigo. Ele dizia que após o término de seu namoro, ele precisava se divertir. Uma pena que eles tinham um diferente conceito de diversão. Com uma cerveja em mãos, ele mal percebeu quando se perdeu dos caras. Deu um gole demorado, não porque estava com sede, mas porque queria parecer ocupado. Colocou a mão desocupada no bolso e tentou ver o seu reflexo em um dos espelhos do local, sentindo-se patético assim que viu sua expressão no espelho. Balançou a cabeça, fazendo um novo acordo: iria embora quando a bebida acabasse, e não se deixaria convencer a ficar por nada. Mal sabia ele que, no último gole após não ter encontrado seus amigos, avistaria o mesmo cabelo cacheado de algumas semanas atrás.

Ela queria ter ido comer pizza, mas suas amigas do curso de francês preferiram ir para essa balada de sertanejo. Não conhecia nenhuma das músicas, muito menos as regras de convívio social naquele lugar. Precisaria dançar? Precisaria bater na palma da mão? Resolveu que, para sobreviver, precisaria abraçar a causa. Então permitiu-se beber um shot de tequila e fazer piada das letras das músicas que tocavam junto com suas amigas. Prometeu para si mesma que não deixaria nada mudar o seu humor, mas não contava que seu olhar encontraria com o dono do rosto de bebê de boca aberta a encarando, como se ela fosse a pessoa mais bizarra e linda do mundo. Ao mesmo tempo.

Ele começou a rir, sem saber se era por causa da cerveja ou porque aquilo era, de fato, um tanto quanto cômico. Também não sabia se era o álcool ou não, mas sentia uma coragem tremenda de se aproximar. De conversar. De construir uma família. 

Ela viu o sorriso dele e o modo como a olhou. Se antes (em todas as noites que havia ido dormir pensando nas infinitas possibilidades que deixara passar quando não teve coragem de interagir com ele no parque) tinha alguma dúvida se ele seria parte de sua vida, agora, ali, vendo-o rir e podendo ver a cor dos seus olhos, ela respirou aliviada de que, ainda, não havia ficado maluca.

Ele pensou que havia chegado no desespero quando passou a sonhar com ela. Quando começou a sentir saudades de alguém que nunca conviveu. Mas ali, ao se aproximar sem conseguir desmanchar o sorriso largo e bobo do rosto, e conseguir ver o desenho que os cachos dela formavam, ele ficou aliviado de entender que os seus sonhos tinham um significado.

Ela não precisou pensar em nenhuma das respostas para as perguntas que ele fazia. Era como se ela já soubesse o que ele queria saber e tivesse as respostas na ponta da língua. Ou talvez ela tivesse praticado vários diálogos sozinha no seu quarto, quando estava entediada. Mas se alguém perguntasse, ela negaria.

Ele chegou a se questionar se aquilo ainda era parte do seu sonho, se ainda era fruto da sua imaginação. Mas os seus olhos eram tão pretos e brilhantes. E seu perfume tão forte e doce, que era impossível que não fosse verdade. 

Ela, de alguma forma, sabia que ele teria uma grande participação em sua vida.

Ele, sem saber explicar como, havia decorado o número do celular dela sem que ela precisasse repetir.

Ela sentia-se tão feliz, que toda vez que fechava os olhos, ainda o via a observando. Seus olhos verdes sem piscar, sem desviar.

Ele sabia que aquela conexão não era possível se fosse somente dessa vida.

Ela tinha certeza de que, o que quer que tivessem, não terminaria no fim de suas vidas.

Eles sabiam que tinham que se encontrar. Eles sabiam que sempre iriam se encontrar, não importava onde, quando ou como.


Eles estariam lá. E quando tivessem que ser, seriam.

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