#019

06:16


Há uma semana eu estava arrumando minha mala para embarcar, literalmente, no meu maior sonho: fazer intercâmbio em Londres. Hoje, uma semana depois, me permiti deixar o inglês de lado por alguns instantes e parar pra pensar em tudo o que aconteceu até agora.
Cheguei em Londres a uma hora da tarde, depois de um vôo com bastante turbulência. Era possível sentir o vento cortante logo depois de pisar fora do avião. Sozinha, eu tentava não pensar muito no que ia ver pela frente. Ainda bem que sou distraída, então isso não foi tarefa difícil. Passei pela imigração sem problemas, peguei minha mala de 9876 Kg sem problemas (ok, meio totalmente desajeitada), e resolvi ir ao banheiro (para os britânicos: toilet) colocar minha bota, porque não queria congelar os meus pés. Depois disso, começou a série que vou chamar de "Tentando Não Perder A Cabeça". 
Aconteceu que eu esqueci o meu celular no banheiro, dentro da área de desembarque. Fui me dar conta somente na fila do metrô, depois de ter andado cerca de 10 minutos com aquela mala enorme. Eu acho que nunca pensei tão positivo na minha vida. Repetia para mim mesma um tipo de mantra: Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo.
Felizmente, encontrei pessoas muito boas e educadas, que me ajudaram. Tive de falar com uns cinco indianos e um angolano, em uma mistura de inglês-português que no final deu para entender. Quando recuperei meu celular, que estava com a segurança do aeroporto, disse uns quinze "thank you very much, you saved my life" pra um dos indianos, que me respondia todas as vezes com um "obrigado obrigado" que, segundo ele, era o que tinha aprendido de português.
Achei que era melhor avisar minha família, pois já tinha passado da hora do meu desembarque e eu avisei que mandaria notícias assim que chegasse. Mas o wifi do aeroporto não funcionava. Então resolvi trocar o chip por um daqui. Mas meu chip estava preso dentro do iPhone.
Respirei fundo, continuei com meu mantra em mais um episódio de Tentando Não Perder A Cabeça.
Passado isso, voltei pro metrô. Comprei meu Oyster, o "Bilhete Único" daqui, e fui procurar para onde deveria ir. Aí descobri que um trecho do metrô estava inoperante, e seria preciso fazer uma transferência por ônibus. Até aí tudo bem, o problema era a Mala Exageradamente Grande And Pesada que eu estava carregando comigo. Mas, como já disse, continuei com o "vai dar tudo certo". Entrei no metrô e descobri que compreender o sotaque da mulher que avisava as estações beirava o impossível. Talvez fosse o nervosismo. Respirava um pouco mais fundo. E agora só conseguia pensar como é que eu ia fazer com a mala se tivessem muitas escadas para sair da estação.
E adivinha? Tinham todas as escadas. Uma pessoa me ajudou a subir com a mala e assim que saí da estação, tive minha primeira sensação do inverno londrino: MUITO. FRIO.
Parei pra pedir informação pro moço do metrô e nisso perdi um dos ônibus. A coisa boa e que me confortava era que eu ia andar no ônibus vermelho de dois andares logo nas minhas primeiras horas na cidade.
Mas a minha empolgação passou rapidinho quando o ônibus demorou mais de uma hora pra chegar no seu destino: a estação que voltava a funcionar a linha que ia até a casa da minha host family. Mas tudo bem, vamos lá, vai dar tudo certo.
Fui passar meu bilhete de novo na catraca e ele simplesmente não funcionava. O único funcionário que eu achei pra perguntar disse que eu teria de recarregar novamente o meu cartão.
E a bilheteria ficava do outro lado de uma avenida.
Lá fui eu e minha Mala Exageradamente Grande And Pesada atravessar a rua para comprar o bilhete. Nessa hora eu só conseguia pensar que já eram quase cinco horas da tarde e eu havia avisado minha host family e a minha família aqui no Brasil que chegava a uma.
Quando finalmente consegui entrar no metrô novamente, depois de passar por mais lances de escada (nesse momento eu já queria jogar minha mala pra ela deslizar até o o último degrau), me deparei com uma moça mal educada que reclamou que eu estava atrapalhando a movimentação dentro do vagão quase vazio. Nessa hora, eu não tinha mais forças para discutir. Finalmente, sentei em um dos banquinhos, abracei minha mala e permiti que uma lágrima caísse dos meus olhos. Estava muito frio, eu estava muito cansada, com dor nos braços de ter carregado a mala pra cima e pra baixo, e me questionando se eu havia feito a coisa certa de ir atrás dos meus sonhos.
Algumas estações depois, cheguei ao meu destino. Obviamente, precisei encarar mais alguns lances de escada, daquelas que são em caracol, ainda por cima. Quando saí da estação, eu nem ao menos prestei atenção no que tinha ao redor. Eu só queria chegar na minha homestay. Foi em Londres que descobri que sou péssima em seguir mapas, e a primeira constatação foi quando tentei me achar em um dos mapas da estação, que mostravam os arredores. A rua onde eu ia morar nas próximas semanas estava ali, mas... Pra qual direção?
Olhei para os lados e vi um táxi chegando. Minha consciência me dizia: táxi em Londres é muito caro. Mas meu corpo pedia pra eu aceitar a fazer a corrida mais cara do mundo. Peguei um táxi até a casa (que no fim ficava a cinco minutos andando da estação) e quando cheguei e desci do carro (oito libras pra andar três quarteirões. Te amo, Uber), demorei um pouco pra entender como a numeração das casas funcionava. Precisei de umas três idas e voltas do começo ao fim da rua para entender o que estava acontecendo.
Achei o número.
Na frente da casa, tem uma escadinha, porque a casa fica no alto. Eu deixei minha mala ali (sério, eu queria jogar aquela mala no lixo), subi as escadas e bati na porta.
Uma senhora atendeu.
Eu: Valerie?
Ela abriu um sorriso enorme e abiru os braços, para que eu pudesse abraçá-la.
Valerie: Oh, my dear, I thought you're not coming anymore!
E foi naquele abraço que eu tanto estava precisando, que eu vi que, apesar de todas essas pedras no meio do meu caminho, eu cheguei até onde queria, desde o início, desde quando decidi bancar pelo meu sonho, desde quando saí do aeroporto rumo a um lugar totalmente desconhecido.
Valerie disse que o jantar iria ser servido em instantes. Falei com meus pais finalmente. Sentei na cama do meu quarto aqui na casa e respirei fundo. Me permiti me olhar no espelho e sorrir e sentir todas as coisas que precisava sentir naquele momento.
Sim, eu tinha feito a coisa certa.

(A série "Sobre Londres" faz parte dos textos que escrevi enquanto estava morando na cidade. Para ler todos, clique aqui.)

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