#021

05:14


Mais um dia. Acordo e, dentro da minha rotina, me preparo para sair de casa. Estava calor, coloquei meu tênis e um vestido. E saí. Nas costas, carregando minha mochila de sempre, azul marinho, que contém a marmita do dia, guarda-chuva, uma blusa de frio. Aquilo de sempre.
No rosto, levava um óculos de sol. No ouvido, um fone na qual qual estava conectado no meu celular. Spotify aberto. A playlist era essa “TENHA UM ÓTIMO DIA”.
Desço a rua rumo à estação de trem. Trem no qual sempre pego para chegar no metrô. Para chegar no meu trabalho.
O trem chegou, estava lotado. Mas achei que caberia. E coube. Mas foi lotando cada vez mais. Ficou todo mundo apertado. Muito apertado. Coloco minha mochila do meio das pernas e continuo minha viagem. Nunca levou mais do que dez minutos para chegar e continuar minha viagem.
Ainda no trem, sinto meu vestido subindo. Já começo a olhar desconfiada para as pessoas ao meu redor, mas não vejo nada. Achei que poderia ter subido por estar lotado. E foi. Mas não foi sem querer.
Desço ele e puxo contra mim, a fim de evitar que subisse de novo. Ainda desconfiada, levanto minha mochila contra o meu corpo, com medo de alguém ter levantado de propósito. Começo a ficar um pouco claustrofóbica dentro do vagão, querendo descer logo. Nesses movimentos de levanta mochila, segura vestido, senti algo quente passando pela minha mão. E a porta abriu. Respirei fundo para sair do vagão. Os dez minutos se tornaram horas. Ao levantar minha mochila para colocar nas minhas costas e seguir viagem, estremeci. Havia gozo escorrendo por ela. Passo a mão pelo meu vestido e ele está molhado também.
Perdi todo o chão, olhava desesperada para as pessoas saindo dentro da porta, mas não vi nenhum suspeito. Apenas observadores, olhando o meu mundo cair naquela plataforma. Procuro algum segurança da estação e o único que vejo é um rapaz ajudando uma deficiente visual chegar a escada rolante. Ninguém estava prestando atenção em mim, até eu desabar, até eu gritar que alguém tinha gozado em mim. Até eu jogar tudo que estava na minha mão no chão e cair em um choro, um choro de desespero, um choro de invasão. Um choro de socorro.
Só que já tinha acontecido. Eu chorei tentando voltar para ter feito qualquer coisa diferente para aquilo não ter acontecido. Eu não queria estar passando por aquilo. Não comigo, não ali, não hoje.
Uma senhora, que seguiria o caminho da escada rolante me segurou nos seus braços e gritou por ajuda junto comigo. Levou-me até o banco mais próximo e ficou indignada junto comigo do que tinha acabado de acontecer. Carregou longe de mim a minha mochila e em alguns minutos um segurança da CPTM apareceu com uma cadeira de rodas para me levar em algum lugar reservado.
Minha cabeça demorou para assimilar tudo o que tinha acontecido. Eu estava tentando parar de chorar e ficar bem, pois eu sabia que tinha que seguir o meu dia, tinha que chegar no trabalho bem. Liguei para uma amiga no trabalho, falando o que tinha acontecido, ainda estava chorando, estava doendo, mas falei que iria me acalmar e iria pra lá. Não queria ir para casa daquele jeito, só queria seguir com o meu dia.
Mas não deu.
Logo me colocaram com uma segurança, segundo eles, é a regra caso aconteça com mulher algum abuso no transporte publico. Ela foi comigo no banheiro e simplesmente disse “Eu não sei nem o que te falar vendo isso que você está passando”. Ela chorou comigo, ajudou a limpar o meu vestido e me abraçou. Logo recebi a notícia que a minha chefe estava vindo ao meu encontro. Lá na estação queriam saber se eu iria para a casa ou prestaria alguma queixa (mesmo eles repetindo inúmeras vezes que não tinham visto quem foi, que não daria em nada). Disse que aguardaria minha amiga chegar.
Liguei para a minha mãe, ainda chorando, não sabia o que fazer. E no meio do nervoso que ela ficou, já soltou: “É claro que isso iria acontecer, você andando com essas roupas curtas.”
E ao longo do dia, ouvi vários questionamentos do tipo:
“Como você não viu?”
“Que estranho.”
“Mas você tem certeza que não viu?”
“Mas você é tão bonita, não tem como não chamar a atenção.”
“Mas você tem certeza que não sentiu mais nada?”
“Como que ninguém que estava perto de você viu?!”
E ao decidir registrar queixa, ganhei um chá de cadeira que levou o resto do meu dia.
O delegado demorou cinco horas para atender, e várias vezes vinha até mim perguntando se iria continuar, já que não tinha o suspeito no local. Perguntou se eu não tinha tirado foto da minha mochila, perguntou porque eu passei papel na minha mochila e limpei o meu vestido. Eles eram provas. Mas que faria o BO.
Toda a burocracia tinha acabado no final da tarde. Mas ainda chorava de dor. Uma dor tão íntima, tão minha. Uma dor que me desestabilizou, uma dor que me puxa muitas vezes para não sair, para ficar em casa. Uma dor que não consegue te deixar pegar qualquer vestido, saia ou short no armário. Uma dor que te deixa com medo de todos e insegura com tudo. Fiquei reclusa por dias, semanas e meses. Peguei o trem e o metrô acompanhada dos meus amigos nas primeiras semanas. Voltar a pegar sozinha foi horrível. Meu coração parecia que iria explodir. Eu não queria olhar para ninguém.
Os dias passaram. Consegui escrever tudo o que eu precisava para não seguir com essa angústia para o próximo ano. Mas não acabou.
Hoje estou em busca da harmonia com a vida, para não desistir dela.

Foi uma viagem de uma estação, que teve consequências em todas as futuras paradas da minha vida.

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